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Comunicação Não-Violenta: saiba o que é e como praticar

Você já ouviu falar em Comunicação Não-Violenta? Não? Então recomendo que leia esse texto!

 

Você já parou pra pensar em como nossa comunicação muitas vezes acontece de forma agressiva e cheia de julgamentos?

Pois é, de certa forma há uma violência cotidiana em nossa cultura e, consequentemente em nossas relações, que perpetuamos inconscientemente através das forma como falamos e ouvimos o outro.

 

Observando isso, o pesquisador Marshall Bertram Rosenberg começou a estudar sobre nossa cultura, desde o nosso passado até os dias de hoje, e percebeu que a forma como nos comunicamos é na maioria das vezes violenta e falta compaixão e empatia por aqueles com os quais a gente se relaciona.

 

A partir daí, ele começou a desenvolver uma forma de comunicação (fala e escuta) que permite uma maior conexão entre as pessoas, para que a compaixão possa emergir, mesmo em situações críticas.

 

Com isso, surgiu a Comunicação Não-Violenta (CNV), uma abordagem de comunicação que busca trazer uma nova forma de nos percebermos e, com isso, de nos expressarmos nas nossas relações.

Ela busca substituir expressões impositivas e desatentas por um comportamento mais consciente, em que há uma maior percepção de suas reais necessidades, tornando possível comunicá-las de forma clara e com respeito por quem as escuta.

 

É muito comum as pessoas expressarem sentimentos negativos como tédio, tristeza, raiva ou frieza, sem notar que cultivam uma nociva desconexão, e lentamente passam a não ver sentido em suas conversas, encontros e eventos sociais.

 

É só perceber como você se comunica no seu ambiente familiar por exemplo, espaço em que geralmente há maior abertura para descargas emocionais. A comunicação passa a ser quase um “apontamento de dedos” constante, e o resultado disso é que, depois de muito tempo de convívio, já não sentimos aquela vibração ou conexão inicial estimulante.

 

É comum perceber que não nos comunicamos de maneira clara na maior parte do tempo. Isso se dá pela dificuldade pessoal em se abrir e se perceber de forma consciente. Observar quais são nossas necessidades, sentimentos, emoções. Tudo isso fica escondido atrás de julgamentos, cobranças e demonstrações de raiva e colocação de culpa.

Nossa linguagem habitual vem dos mesmos locais, compartilha dessa raiz que busca dominar e convencer, e não se conectar e se relacionar.

 

 

Pra ficar mais claro, segue um exemplo:

 

João marcou de sair com Pedro para assistirem o jogo de futebol juntos. Eles combinaram de se encontrar em um barzinho às 17h, pois o jogo começava 17h30. João chegou na hora combinada, mas Pedro acabou pegando muito trânsito no caminho e chegou atrasado, às 17h45.

Quando Pedro chegou, João disse a seguinte frase:

“Caramba Pedro, isso são horas? Você é muito enrolado mesmo! Estou esperando há um tempão. Você nunca consegue chegar na hora! Da próxima vez vou marcar uma hora antes pra ver se você consegue ser mais pontual.”

 

Bom, agora uma pausa pra refletir sobre o exemplo que dei.

Como você acha que Pedro se sentiu ao ouvir essa frase? Você percebe a violência implícita nas palavras de João?

 

É muito provável que Pedro se sinta muito culpado e frustrado por não ter chegado mais cedo, mesmo que não tivesse muito o que fazer para resolver a situação. Enquanto isso, João apenas acusa Pedro, sem levar em consideração seus sentimentos e a sua real necessidade que não foi realizada, que acabou gerando tamanho incômodo e, consequentemente, sua reação agressiva.

 

Agora, se João tivesse conhecimento da CNV, ele poderia ter dito a frase de outra forma:

 

“Caramba Pedro, havíamos combinado de nos encontrar às 17h e você chegou às 17h45. Seu atraso me deixou chateado, pois não gosto de ficar sozinho e isso me deixou nervoso. Além da preocupação que senti, pois temi que algo tivesse acontecido com você. Por favor, em uma próxima vez, tente me avisar que irá se atrasar, isso me deixará mais tranquilo. ”

 

Percebe como a mensagem contida na segunda frase é menos agressiva, sem julgamentos e culpa? Ao invés disso, há uma expressão mais clara das necessidades e emoções de João e um pedido racional e possível de ser realizado.

 

Sei que aplicar essa nova abordagem na prática não é tarefa fácil, pois aprendemos desde cedo a nos comunicarmos de forma menos atenciosa. Por isso, é necessária uma maior consciência de si mesmo para poder se expressar de forma mais clara e com mais empatia. Até porque, na maioria das vezes, o outro não tem culpa pelos seus sentimentos. Sendo assim, de nada adianta jogá-los para o outro, como se fosse sua responsabilidade suportá-los. Essa é uma tarefa que cabe a cada um de nós.

 

Caso você tenha se interessado por essa nova forma de se comunicar, seguem os quatro componentes da comunicação não-violenta pra você aplicar no seu dia a dia.

 

A. Expresse-se com honestidade

 

A.1. Observe de maneira descritiva e não julgadora

 

Assim como no exemplo usado acima, ao invés de julgar o outro, use palavras para descrever suas atitudes e como você se sentiu a partir delas.

 

"fulano é um idiota" e "quando fulano fala alto e usa xingamentos me sinto acuado e com medo".

 

Isso gera um efeito de aproximação entre as pessoas e evita uma fala carregada de culpa e punição.

 

A.2. Sentimento: Observe como se sente em relação ao que está vendo

 

Se pararmos pra pensar, quase não acessamos nossas emoções nas relações. Isso acaba gerando uma dificuldade em perceber como a gente se sente de verdade.

Percebo muito isso em consultório. Ao perguntar como o paciente se sente, muitas vezes ele traz descrições como: “sinto um aperto no peito” ou ele faz apenas gestos, sem conseguir expressar em palavras suas emoções.

Essa percepção de si mesmo é muito importante para poder se comunicar de forma clara e efetiva.

 

A CNV estimula uma forma de expressão reveladoramente emocional, mesmo que se corra o risco de ser visto como fraco. Dialogar a partir de um sentimento desarma uma contrarreação hostil.

 

Ao lidarmos com conflitos, é essencial assumir total responsabilidade por nossos sentimentos, pois as situações externas e pessoas são apenas gatilhos para reações internas hostis.

 

A.3. Necessidades: Observe quais valores e desejos geram seus sentimentos

 

Quando nos comunicamos a partir de nossas necessidades, sentimentos e desejos, temos mais chance de ser acolhidos do que quando usamos julgamentos e avaliações.

 

A.4. Faça pedidos claros e específicos

 

Ao expressar suas necessidades, faça isso da forma mais clara possível. Tente se comunicar quase visualmente, de modo que qualquer pessoa possa entender. Isso irá facilitar a compreensão e, consequentemente, fará com que suas pontuações sejam atendidas de forma mais rápida e assertiva. Ninguém é obrigado a entender suas reações!

 

 

B. Ajude os outros e ouça com verdadeira empatia

 

Quando ouvimos alguém, sentimos uma necessidade quase instantânea de oferecer algum tipo de conselho ou algo que resolva o problema, não é mesmo? E essa pergunta serve também para os colegas psicólogos. Quem nunca ficou incomodado por não conseguir “consertar” o problema do outro?

Só que quando o ouvinte se coloca nessa posição de resolver a situação, falta energia e tempo para ouvir e estar totalmente disponível emocionalmente.

 

Para encontrar uma forma de comunicação genuína, é preciso interromper o fluxo de nossos pensamentos habituais e oferecer uma escuta atenta. Isso irá trazer maior relaxamento para quem fala e para quem escuta também.

 

C. Tenha compaixão consigo mesmo

 

Curiosamente, a falta de compaixão também aparece na forma como falamos e agimos com nós mesmos.

Quando agimos de uma forma diferente daquela que planejamos, vemos nisso um erro e aí começam as autoacusações.

 

A mesma comunicação não-violenta que utilizamos ao tentar ouvir as necessidades do outro pode ser aplicada na comunicação com nós mesmos. Ao “errar”, não caia no ciclo de acusações, pergunte-se quais necessidades não foram atendidas e busco resolvê-las.

 

D. Cuidado com a raiva

 

Quando uma pessoa se faz de “durona”, por trás da raiva e da agressividade está uma pessoa vulnerável e insegura.

A raiva geralmente surge de uma necessidade que não foi atendida e de uma interpretação errada do fato que gerou as emoções negativas.

 

Ao ficar bravo com um amigo pelo atraso, lembre-se que não é o atraso apenas que causou a raiva, mas o desapontamento de não se sentir respeitado.

 

Quando se sentir com muita raiva, prestes a explodir, experimente fazer esse exercício:

 

1. Pare e respire profundamente;

2. Identifique os próprios pensamentos, em especial aqueles julgadores;

3. Conecte-se às próprias necessidades, escondidas por trás da raiva;

4. Expresse seus sentimentos e necessidades não-atendidas.

 

E quando somos nós que incitamos raiva em alguém? Como agir?

 

Um caminho seria tentar entender quais sentimentos estão por trás das reações agressivas.

 

Pergunte ao outro:

"Queria entender melhor, como você se sente a respeito disso?" ou "Gostaria de ouvir seus reais sentimentos em relação a tal coisa..."

 

Dê ênfase às necessidades que não foram atendidas, ao invés de entrar num embate que não irá gerar nenhum resultado positivo.

Bom, agora que você já aprendeu uma pouco mais sobre a CNV, comece a colocá-la em prática, mesmo que aos poucos, nas suas relações cotidianas.

 

E claro, é importante ressaltar que esse tipo de comunicação nada tem a ver com ser passivo, simpático ou sem força, mas sim em oferecer uma possibilidade de criar uma comunicação mais alinhada entre você, o outro e o mundo. Essa abordagem pede muita persistência e prática para perceber que existe um espaço humano seguro para discordar e até não se entender – e mesmo assim seguir conectado, dialogando com respeito e compaixão pelo outro.

 

E agora convido você a refletir: como anda a sua comunicação como os outros e com você mesmo?

 

Para saber mais:

Entrevista com Marshall Bertram Rosenberg

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